A seca de 2026 no Amazonas não deve repetir os níveis históricos de 2023, mas ainda exigirá atenção e planejamento antecipado do setor produtivo. Essa foi a mensagem central da palestra “Prognóstico Climático para a Cheia e Vazante no Amazonas 2026”, realizada nesta semana em Manaus, pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) em parceria com o Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre da Universidade do Estado do Amazonas (Labclim/UEA).
O evento reuniu representantes da indústria, do comércio, de órgãos públicos e da academia para debater os cenários climáticos previstos para o segundo semestre e discutir medidas preventivas capazes de evitar o desabastecimento e interrupções na produção do Polo Industrial de Manaus (PIM).
El Niño: de moderado a forte
De acordo com as projeções do Labclim, as condições associadas ao fenômeno El Niño devem permanecer entre os meses de julho e agosto, com intensidade variando entre moderada e forte. O período mais crítico da vazante está estimado para outubro e novembro — janela em que o transporte fluvial de cargas tende a sofrer os maiores impactos.
O professor Francis Wagner Silva Correia, coordenador do Labclim, foi direto: “Esperamos uma seca dentro do padrão de um El Niño moderado a forte, sem repetir os níveis extremos registrados em 2023. Ainda assim, recomendamos que as empresas adotem planejamento estratégico e antecipem a chegada de insumos e materiais, evitando depender do transporte de cargas durante o período do pico da seca.”

A recomendação é especialmente importante para os setores sensíveis do PIM que dependem do modal hidroviário, predominante na logística amazônica. Quem depende do transporte de cargas na região precisa se preparar antes que o rio baixe.
Ferramenta de previsão com 80% de acerto
A professora Fabiana Lucena Oliveira, subcoordenadora da área de logística do Labclim, destacou que o projeto vem desenvolvendo ferramentas cada vez mais precisas para antecipar tendências climáticas e seus efeitos sobre as operações do PIM. Segundo ela, o sistema realiza previsões com horizonte de 30 a 45 dias e expectativa de acerto de aproximadamente 80%, o que permite às empresas e gestores públicos avaliar riscos e tomar decisões com maior segurança.
“Desde 2023, trabalhamos para evitar o efeito surpresa causado pelos eventos extremos registrados naquele ano. É fundamental divulgar informações que permitam às instituições se planejar com antecedência diante de possíveis ocorrências climáticas severas”, afirmou a professora.
A seca de 2023 é o marco que orienta os esforços do laboratório: naquele ano, o nível do Rio Negro em Manaus atingiu o menor registro histórico, travando a logística regional e causando prejuízos em cadeia ao setor produtivo. Evitar que esse cenário se repita — mesmo em versão menos extrema — é o objetivo da iniciativa.
Ciência a serviço da produção
Para o superintendente da Suframa, Leopoldo Montenegro, a articulação entre ciência e setor produtivo é o que diferencia uma resposta reativa de uma estratégia de prevenção eficaz. “Nosso objetivo é transformar conhecimento científico em informação estratégica para que as empresas possam se planejar com antecedência e reduzir riscos à produção e ao abastecimento durante os períodos de estiagem”, frisou.

Na abertura do evento, a superintendente-adjunta de Projetos substituta da Suframa, Camilla Medeiros, também ressaltou a importância da cooperação técnica entre os órgãos para fortalecer estratégias de monitoramento, prevenção e adaptação frente a eventos climáticos extremos — tendência que deve se intensificar nas próximas décadas em função das mudanças globais no clima.
O recado para o setor produtivo
A mensagem prática saída da palestra é clara: quem depende de insumos vindos de fora da região precisa agir agora. Antecipar compras, reforçar estoques e evitar concentrar operações logísticas nos meses de outubro e novembro são as principais recomendações para empresas do PIM que querem atravessar a estiagem sem interrupções na linha de produção.
O Labclim continuará monitorando as condições climáticas e deve atualizar as projeções à medida que os dados se consolidarem ao longo do segundo semestre.
Via Jornal do Commercio Amazonas
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