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Meio Ambiente

Um grito silenciado pela violência: 19 anos do martírio da Irmã Dorothy 

Dorothy Stang, a 74-year-old American nun, was shot to death early February 12, 2005 in Brazil's Amazon rain forest where she worked to defend human rights and the environment despite frequent death threats, federal police said. Unknown assailants shot U.S. missionary, Dorothy Stang at point-blank range at an isolated agricultural settlement in dense jungle 31 miles from the town of Anapu in the state of Para, police and fellow religious workers said. A February 12, 2004 file photo shows Missionary sister Dorothy Stang in Belem, northern Brazil. (BRAZIL OUT) REUTERS/Imapress/AE/Carlos Silva

Por Camila Del Nero e Carol Lira  

Depois de quase duas décadas do assassinato da missionária norte-americana Irmã Dorothy, no dia 12 de fevereiro de 2005, por defender comunidades extrativistas, o direito à terra e a preservação da Amazônia, o legado da religiosa permanece vivo e representa a resistência que até hoje muitas lideranças e defensores da floresta em pé encontram contra fazendeiros, grileiros e madeireiros que desrespeitam os direitos das comunidades e insistem na destruição da Amazônia. O ativismo incansável da missionária a fez alvo de ameaças constantes, mas ela permaneceu firme em sua missão. 

O assassinato da Irmã Dorothy não foi um caso isolado, faz parte da triste realidade de violência, ameaças e assassinatos que milhares de defensores do meio ambiente e dos povos amazônicos enfrentam pelos rincões desse país. A luta pela preservação da floresta em pé ainda persiste, todos os anos defensores da Amazônia pagam com a própria vida pela defesa do direito à terra e ao território.  

A geografia da violência no Brasil escancara o fato de a Amazônia Legal, mais uma vez, estar na berlinda. A macrorregião, conforme os dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), registrou 64,5% dos atos de violência contra a pessoa no ano de 2023, um número quase 40% maior do que havia sido registrado em 2021. Em termos de conflitos em geral, foram detalhados 1.107 casos no campo em 2022, dos quais a Amazônia representa 55% de todo o país. O número é o segundo maior já registrado pela CPT, ficando atrás apenas de 2020.  

Hoje, 19 anos após sua morte, o legado da irmã Dorothy permanece vivo. Sua coragem e determinação inspiram aqueles que continuam a lutar por justiça social e ambiental. Muitas organizações e comunidades na Amazônia seguem o exemplo dela, resistindo às pressões destrutivas e buscando um equilíbrio sustentável entre a preservação ambiental e o desenvolvimento humano. 

Dom Erwin Kräutler, bispo emérito do Xingu e ex-presidente da Rede Eclesial Pan-amazônica (REPAM-Brasil), conviveu com Dorothy e recorda “antes de ser assassinada, Irmã Dorothy abriu sua sacola de pano, cumprindo “ordem” de seus algozes que queriam indagar se ela estava armada, e mostrou-lhes o que ela chamava de sua arma: a Bíblia Sagrada. Este seu gesto derradeiro é o último recado que Dorothy nos deixou.”  

“É sempre a Palavra de Deus que nos inspira e orienta em nosso caminho. “As armas com que combatemos não são humanas, o seu poder vem de Deus e são capazes de destruir fortalezas” (2Cor 10,4). Nas bem-aventuranças no Evangelho de Mateus (Mt 5,1-12) há aquelas que se referem explicitamente ao empenho em favor da promoção da justiça e da paz: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça” (v.6), “bem-aventurados os que são perseguidos por causa de justiça” (v.10). E aos que arriscam a vida em favor da justiça, em favor da promoção humana, da dignidade humana, dos direitos humanos, é afirmado que “deles é o Reino dos Céus”, reflete Dom Erwin.  

A impunidade é uma característica preocupante nesse contexto. Muitos assassinatos de líderes na Amazônia permanecem sem resolução, contribuindo para um ambiente de medo e desconfiança. A falta de responsabilização enfraquece os esforços para criar um ambiente seguro para aqueles que dedicam suas vidas à preservação da Amazônia e à proteção das comunidades que a chamam de lar. 

A busca por justiça, diante da impunidade, é o que motiva a luta da advogada e ativista Claudelice dos Santos, que leva adiante o legado do irmão José Claudio Ribeiro da Silva, e da cunhada, Maria do Espírito Santo. O casal denunciava invasões e a extração ilegal de madeira no sudeste do Pará. Eles foram vítimas de uma emboscada no dia 24 de maio de 2011 no assentamento agroextrativista Praia Alta-Piranheira, na zona rural de Nova Ipixuna.  

Hoje ela também sofre ameaças por dar continuidade ao trabalho dos líderes comunitários no Instituto Zé Claudio e Maria (IZM), que defende e apoia lideranças e famílias ameaçadas pela luta socioambiental na Amazônia.  

Claudelice chama atenção para a impunidade dos crimes cometidos contra defensores dos direitos humanos e da natureza. “E ainda inadmissível que tanto anos depois a situação esteja em condições muito semelhantes, porém com maior sofisticação com relação a violência, no entanto o quadro pouco mudou, a violência continua extrema e velada sobretudo contra mulheres defensoras de direitos humanos”, ressalta.  

Ao recordar o legado de Dorothy, Claudelice explica que a missionária é um exemplo a ser seguido de resistência e persistência. “O legado de irmã Dorothy é um legado atemporal, estamos quase 20 anos falando o quanto era corajosa, perspicaz e ficou ao lado de quem tanto precisava de carinho e cuidado, ela efetuou o amor na vida das pessoas. Para nós, do movimento, é uma honra estar do mesmo lado que ela lutou”, afirma a ativista. 

“Infelizmente, décadas depois os defensores das terras, das águas e dos direitos humanos continuam sofrendo as consequências sem a influência efetiva do Estado para a resolução dos conflitos ou sequer criar mecanismos eficientes para proteção. Isso é inadmissível, mas infelizmente mais defensores tombam por essa ineficiência do Estado por omissão e por ações do próprio Estado, que leva aos casos de assassinato. Os defensores de direitos humanos não são vulneráveis são vulnerabilizados pela situação extrema de abandono. O Estado brasileiro que deixa os defensores de direitos humanos e do meio ambiente à mercê, da bandidagem, do garimpo, de grandes projetos, que passam por cima da vida de pessoas e da própria natureza”, lamenta Claudelice.  

Mais de 1 em cada 5 assassinatos de defensores da terra e do meio ambiente registrados no mundo em 2022 aconteceram na Amazônia. No total, 177 pessoas morreram em todo o planeta, sendo 39 (22%) na maior floresta tropical, segundo um levantamento da ONG (organização não governamental) Global Witness.  

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